Aos seis anos, ele virou o homem da casa.
O pai foi embora quando a Lívia ainda era bebê. Disse que não dava conta de duas crianças.
O Bernardo tinha seis anos. Naquele dia, ele decidiu que ia cuidar de nós.
Buscava a irmã na creche, esquentava a comida dela, checava as portas de madrugada.
"Alguém tem que proteger vocês", ele repetia. Nunca teve a chance de ser criança.
No dia do ataque, ele fez o que sempre fez.
O cachorro avançou na Lívia. O Bernardo não pensou: se jogou na frente.
Segurou o ataque com o próprio rosto. A irmã não ficou com um arranhão.
Pálpebra, bochecha, lábio. O rosto do meu filho foi rasgado para salvar o dela.
A Lívia está inteira. Por causa dele.
A minha caçula não tem uma só marca. Porque o irmão não deixou o cachorro chegar até ela.
Um menino de dez anos fez o que o pai adulto nunca fez: protegeu esta família.
Agora somos só eu e ele. E eu não vou soltar a mão do meu filho.
São 45 dias para salvar o rosto dele.
Os médicos foram diretos: a reconstrução precisa acontecer em 45 dias.
Depois disso, a cicatriz endurece, a pálpebra não fecha e ele pode perder a visão do olho esquerdo.
Pelo SUS, a fila é de oito meses só para a primeira avaliação. Meu filho não tem esse tempo.
A cirurgia custa 92 mil reais. Mandei a foto dele no hospital para o pai — ele viu, não respondeu e me bloqueou.